Plano de recuperação do Cerrado no DF é construído por meio de fórum permanente

Equipe coordenada pela Secretaria do Meio Ambiente articula sete grupos colegiados que pensam e monitoram políticas públicas de preservação e de valorização do bioma 

Equipe coordenada pela Secretaria do Meio Ambiente trabalha na construção de um plano para conservar a vegetação no DF. Foto: Pedro Ventura.
“Queremos construir uma agenda de políticas públicas que recuperem e protejam o Cerrado”, explica o superintendente do Cerratenses e um dos responsáveis pelo grupo, Rafael Poubel. O objetivo, segundo ele, é repensar e monitorar a legislação ambiental e, assim, fortalecer temas como proteção de mananciais, preservação das bacias hidrográficas e recuperação de áreas degradadas. Questões que serão debatidas também no 8º Fórum Mundial da Água, em 2018.

“Queremos construir uma agenda de políticas públicas que recuperem e protejam o Cerrado”Rafael Poubel, superintendente do Cerratenses

Os cerca de cem integrantes do colegiado estão divididos em sete grupos de trabalho para discutir legislação, comunicação, educação ambiental, métodos e pesquisas, informações, sociobiodiversidade e financiamento. “A integração permite identificar melhor o potencial das frentes de trabalho envolvidas na conservação”, destaca Poubel. A Aliança Cerrado foi criada em setembro de 2015, mas os participantes já trabalham desde março daquele ano.

Até dezembro de 2016, o grupo desenvolverá um documento para definir mecanismos legais e financeiros, áreas prioritárias de recomposição florestal e metas de reflorestamento para os próximos anos, além da valorização cultural do Cerrado e da melhoria da pesquisa e gestão de unidades de conservação. Também é estudada a construção de um edital público para recuperação do bioma no DF.

Durante a Virada do Cerrado, que ocorrerá de 8 a 11 de setembro, o fórum vai apresentar o desdobramento do trabalho ao público em datas ainda não definidas. A visibilidade do evento será aproveitada pela Secretaria do Meio Ambiente como oportunidade para que novas entidades interessadas façam parte da Aliança Cerrado.
No DF, proprietários ou empresas que extraem espécies de árvores nativas devem replantar 30 árvores para cada uma erradicada e fazer a manutenção das mudas por dois anos.Foto: Pedro Ventura

Compensação ambiental é tema na Aliança Cerrado

Uma das grandes questões em voga é a compensação ambiental, e a equipe da Aliança Cerrado debate a legislação sobre o tema. “Avaliamos como os marcos legais podem ajudar ou atrapalhar a conservação do bioma”, explica o coordenador do grupo e chefe da assessoria jurídico-legislativa da pasta do Meio Ambiente, Raul do Valle. Formada por cerca de 40 pessoas, a equipe faz o levantamento jurídico e trabalha para a reformulação das práticas estabelecidas por lei. “Há muita coisa obsoleta. Para essas, pensamos novos parâmetros, técnicas e alternativas possíveis”, explica o servidor.

No caso da compensação ambiental, por exemplo, o objetivo é modernizar o texto do Decreto n° 23.585, de fevereiro de 2003, base legal para a cobrança. No DF, proprietários ou empresas que extraem espécies de árvores nativas devem replantar 30 árvores para cada uma erradicada e fazer a manutenção das mudas por dois anos.

“Estudamos formas mais baratas, simples e que cumpram a função”, afirma. De acordo com Valle, as ideias seguem o modelo usado pelo governo de São Paulo. “A compensação deixa de ser por árvore e passa a ser por área de vegetação suprimida”, explica. O objetivo da mudança é chegar ao desmatamento líquido zero, quando a preservação é maior que a degradação.

A equipe também trabalha para alterar as regras de restauração ambiental no DF seguindo os estudos de outra frente, a dos mapas de áreas prioritárias de preservação do Cerrado. “Queremos aprimorar e estabelecer novos critérios para aferir se as restaurações estão adequadas ao Cerrado”, adianta o chefe da assessoria jurídica da Secretaria do Meio Ambiente.
Entidades civis debatem restauração de áreas degradadas

Para o pesquisador Andrew Miccolis, coordenador do Centro Internacional de Pesquisa Agroflorestal no Brasil, ouvir os interesses de entidades civis, como a que ele representa, é fundamental para pensar a recuperação do Cerrado democrática e efetivamente. “Trabalhamos de forma colaborativa pela construção de uma política distrital de recuperação que adapte o Código Florestal Brasileiro à realidade do Cerrado”, explica o membro do grupo de Métodos e Pesquisa da Aliança Cerrado.
O grupo desenvolve uma série de indicadores que ajudarão a avaliar os resultados do trabalho de restauração ambiental. Foto: Pedro Ventura.

A organização internacional discute no fórum as maneiras de restauração nas unidades de conservação, áreas públicas e privadas que foram degradadas no DF. “Participamos com o suporte técnico, com nosso conhecimento inovador sobre a efetividade das agroflorestas na recuperação da vegetação nativa”, explica. O plantio de mudas nativas, prática amplamente explorada, não necessariamente é a mais adequado, segundo Miccolis.
“Trabalhamos de forma colaborativa pela construção de uma política distrital de recuperação que adapte o Código Florestal Brasileiro à realidade do Cerrado”Andrew Miccolis, pesquisador do grupo de Métodos e Pesquisa da Aliança Cerrado

De acordo com ele, o modelo mais indicado para a agricultura familiar seria aquele que possibilita uma troca benéfica entre a natureza e o homem. “Os sistemas agroflorestais permitem o plantio de espécies nativas e exóticas, como algumas frutíferas que podem produzir alimentos, muitas vezes um grande incentivo para aquele produtor”, defende.

O grupo desenvolve uma série de indicadores que ajudarão a avaliar os resultados do trabalho de restauração ambiental. O monitoramento é de responsabilidade do Instituto Brasília Ambiental, que também participa ativamente dos debates.

Integram a Aliança Cerrado pelo governo de Brasília a Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal (Adasa), a Companhia de Abastecimento e Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb), a Agência de Desenvolvimento do Distrito Federal (Terracap), o Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap), a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Distrito Federal (Emater-DF), o Instituto Brasília Ambiental (Ibram), o Jardim Botânico de Brasília, e as Secretarias da Agricultura, Abastecimento e Desenvolvimento Rural, de Educação, e do Meio Ambiente.
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