Horta comunitária divide opiniões na Asa Norte

Plantio de hortaliças, temperos e ervas aromáticas às vezes são bem recebidas. Mas podem causar guerras, como acontece na mesma 216 Norte

Foto: Kléber Lima
Em busca de uma alimentação saudável e contato com a natureza, moradores da 216 Norte criaram pequenas hortas comunitárias entre os prédios da quadra. Temperos, chás e outros alimentos são plantados com objetivos terapêuticos e medicinais. Entretanto, as iniciativas dividem opiniões, e o que deveria ser um bem comum se tornou polêmica. Nesta terça (24), um desses espaços foi desmatado.

O italiano Max Lucich, 49, professor de cultura italiana em Brasília, mora há 15 anos no Bloco H e afirma que criou um jardim medicinal aromático com o objetivo de dar uma utilidade positiva a um pequeno espaço em frente ao prédio. Mas se deparou com dificuldades logo no começo. “Acabaram destruindo tudo, jogando cimento por cima. Depois de um tempo me juntei com alguns moradores e quebramos esse concreto. Algumas das plantas se recuperaram de uma maneira incrível”, conta.

Ali eram plantados salsa, aipim, aipo, almeirão, barbosa, bolso, entre outros tipos de plantas. “Algumas mudas, inclusive, foram reaproveitadas. Foram pegas no lixo, porque tinha gente que estava jogando fora”, diz.

Ataques

Max revela que o seu pequeno jardim já sofreu ataques anônimos. “Tem muita gente mal-intencionada. É um pouco dessa intolerância que a gente vê no Brasil. Jogaram produtos químicos em algumas das mudas com a intenção de acabar com a horta”, denuncia.
Ontem, de fato, o espaço foi oficialmente desmatado. O síndico do Bloco H, Jader Almeida, explica a polêmica. Segundo ele, em uma assembleia em fevereiro deste ano, a maioria dos condôminos aprovou o fim do jardim medicinal.

“O que nós queremos é deixar o espaço mais organizado e bonito. Tinha muito lixo e água parada. Estamos analisando algumas propostas para decidir o que exatamente será feito com aquele local”, afirma o síndico. Jader garante que parte das mudas seria transplantada para outro local, em frente ao prédio.
Max, por sua vez, lamenta o desfecho do caso. “Um paisagista chegou às 9h de hoje (ontem) com um facão e começou a cortar as plantas. Não tinha conversa. Então, perguntei se poderíamos pelo menos salvar algumas plantas e ele disse que sim”, relata. Agora, ele ainda não sabe como será daqui pra frente: “Estamos bem tristes. Destruíram um pé de pitanga que tinha mais de 15 anos… amanhã (hoje) vão voltar para destruir o resto”.

Exemplo de harmonia

Em outra horta comunitária, também na 216 Norte, a situação é diferente: os moradores se reúnem aos domingos para plantar e colher alimentos. A bióloga Bruna Souza Monsores, 39, conta que teve a ideia quando o marido estava de férias. “Ele queria muito mexer na terra, com as plantas. Não demorou muito para os outros moradores nos apoiarem”, lembra.

Na opinião de Bruna, as pessoas ficam muito presas dentro de seus apartamentos e acabam perdendo o contato com a natureza. “Além disso, nós criamos uma rede de contatos entre os moradores. Acabamos se conhecendo melhor e criando uma relação”, aponta a bióloga. De acordo com ela, os alimentos produzidos ali, como rúcula e couve, têm um sabor bem melhor que os de supermercado.

Para ela, o principal desafio é reunir colaboradores dispostos a ajudar. “Na hora de colher todo mundo quer, mas, para cuidar são poucas pessoas”, admite.
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Paulo Melo

"Não viva para que a sua presença seja notada, mas para que a sua falta seja sentida." (Bob Marley)